Ontem fui renovar minha carteira de motorista que já estava vencida há um mês. Hoje fui buscar. Voltei feliz pra casa da mesma forma como me senti quando peguei minha primeira habilitação: estou habilitada a me aventurar por aí, again. Muito boa essa sensação. Fui ao Poupatempo Sé, que fica proximo à Praça da Sé e tanto hoje como ontem aproveitei para dar uma andadinha por lá. É uma praça tão bonita, fiquei pensando que seria legal passear com a Luiza por lá, pra tomar um solzinho, mas não dá. Muitos moradores de rua, muitos problemas sociais, drogas, pobreza. Por três anos trabalhei para uma Cooperativa de reciclagem de lixo e estive em contato com esse submundo, o invisivel mundo de quem vive à margem da sociedade. Enquanto andava pela lendária Praça da Sé, procurava pelo D., pelo E., pelo V., cooperados que conheci e que preferiram a rua a deixar de usar drogas. Triste, não? Fiquei me perguntando onde estão, como estão e me lembrei que a Sé não era bem o reduto frequentado por eles, cada um tem sua preferência. Aqui em São Paulo existe uma outra cidade, uma cidade invisivel, a dos moradores de rua, que só quem passa por isso, ou como eu, trabalha com estas pessoas, conhece. Dá pra dormir, tomar banho, comer, se tratar sem gastar nenhum tostão. É a máquina da desigualdade social, dirigida pelo governo e por ONGs, por pessoas movidas pela obrigação e outras motivadas pelo desejo de um mundo melhor, mas que não consegue garantir vida digna a todos. Na tentativa de minimizar este problema, oferecem abrigo por uma noite, comida, roupa limpa, banho, mas não casa, lar, refeições e trabalho.
Conheci pessoas de diversos tipos. Aquele que foi empresário e que perdeu tudo pela bebida, aquela que era freira, mas que foi acusada de promiscuidade e foi convidada a retirar-se do convento e sem ter para onde ir, foi pra rua. Aquele que saiu de longe buscando um sonho, mas que deparou-se com uma realidade bem diferente e, com vergonha de contar pra familia que falhou, foi ficando por aqui, de albergue em albergue, tentando, sonhando, desejando conquistar algo melhor. Aquele que fugiu da opressão do pai e tornou-se um andante. Aquele que surtou depois de perder a mãe e passou anos e anos vagando pelas ruas, aprontando arruaças, dando uma de chefe, de rei. Aquele que se habituou à liberdade de viver sem muros, sem paredes e que já não se adapta mais a uma vida igual a minha e de todos aqueles que vivem de acordo com as regras sociais, que paga impostos, que tem um teto.
É um outro mundo, mundo este que nos passa despercebido na maior parte do tempo. Às vezes nos lembramos dele nesta época do ano, época de Natal, de confraternização, amor e CARIDADE. Tem gente que faz sopão pra quem mora na rua, tem gente que doa roupas, comida e por aí vai, mas no resto do ano evitamos olhar, enxergar este outro mundo, este mundo invisível. Mas ele está aí e lá, na Praça da Sé, podemos entrar neste mundo ao menos um pouquinho. Penso que anos atrás este mundo era lá, mas andaram revitalizando os cartões postais de São Paulo e a Praça anda tão bonita e tão bem cuidada que espanta quem não tem para onde ir, mas não ao ponto de eliminar por completo, há aqueles que são fieis ao seu ponto, como a cracolandia, a Prefeitura vai lá e põe todo mundo pra fora, mas dois dias depois está todo mundo de volta. Nem todo mundo que vive nas ruas usa drogas, mas uma boa parte usa sim e contra ela, a droga, haja projeto social pra dar conta.
A coisa que mais me impressionou ao tomar contato com este outro mundo, é que boa parte daquelas pessoas, nasceram como eu, viveram como eu e, porque alguma coisa não saiu como se esperava, foi parar na rua. Eu pensava ao ouvir estas historias: podia ser eu ou podia ser um dos meus. Ninguem nasce na rua, sem pai nem mãe, as pessoas vão parar na rua. E quem está na rua não é necessariamente aquele que pede esmolas e coisa e tal, nem dá pra confundir o morador de rua com o morador de favela, são categorias muito diferentes. O morador de favela pertence a uma classe social menos favorecida, o morador das ruas pertence a todas e à nenhuma classe social. Vive num universo paralelo, onde não há taxas nem impostos, regido por regras proprias, contituindo um mundo invisivel e único. Não sei no resto do mundo, mas aqui em São Paulo é assim. Senti-me muito pequena ao pensar todas estas coisas enquanto caminhava para buscar minha CNH, minha permissão para usufruir de um luxo que poucos tem, enquanto muitos outros se apertam nos trens e ônibus e outros tantos andam, vagam, por aí, sem destino certo, sem rumo.
Conheci pessoas de diversos tipos. Aquele que foi empresário e que perdeu tudo pela bebida, aquela que era freira, mas que foi acusada de promiscuidade e foi convidada a retirar-se do convento e sem ter para onde ir, foi pra rua. Aquele que saiu de longe buscando um sonho, mas que deparou-se com uma realidade bem diferente e, com vergonha de contar pra familia que falhou, foi ficando por aqui, de albergue em albergue, tentando, sonhando, desejando conquistar algo melhor. Aquele que fugiu da opressão do pai e tornou-se um andante. Aquele que surtou depois de perder a mãe e passou anos e anos vagando pelas ruas, aprontando arruaças, dando uma de chefe, de rei. Aquele que se habituou à liberdade de viver sem muros, sem paredes e que já não se adapta mais a uma vida igual a minha e de todos aqueles que vivem de acordo com as regras sociais, que paga impostos, que tem um teto.
É um outro mundo, mundo este que nos passa despercebido na maior parte do tempo. Às vezes nos lembramos dele nesta época do ano, época de Natal, de confraternização, amor e CARIDADE. Tem gente que faz sopão pra quem mora na rua, tem gente que doa roupas, comida e por aí vai, mas no resto do ano evitamos olhar, enxergar este outro mundo, este mundo invisível. Mas ele está aí e lá, na Praça da Sé, podemos entrar neste mundo ao menos um pouquinho. Penso que anos atrás este mundo era lá, mas andaram revitalizando os cartões postais de São Paulo e a Praça anda tão bonita e tão bem cuidada que espanta quem não tem para onde ir, mas não ao ponto de eliminar por completo, há aqueles que são fieis ao seu ponto, como a cracolandia, a Prefeitura vai lá e põe todo mundo pra fora, mas dois dias depois está todo mundo de volta. Nem todo mundo que vive nas ruas usa drogas, mas uma boa parte usa sim e contra ela, a droga, haja projeto social pra dar conta.
A coisa que mais me impressionou ao tomar contato com este outro mundo, é que boa parte daquelas pessoas, nasceram como eu, viveram como eu e, porque alguma coisa não saiu como se esperava, foi parar na rua. Eu pensava ao ouvir estas historias: podia ser eu ou podia ser um dos meus. Ninguem nasce na rua, sem pai nem mãe, as pessoas vão parar na rua. E quem está na rua não é necessariamente aquele que pede esmolas e coisa e tal, nem dá pra confundir o morador de rua com o morador de favela, são categorias muito diferentes. O morador de favela pertence a uma classe social menos favorecida, o morador das ruas pertence a todas e à nenhuma classe social. Vive num universo paralelo, onde não há taxas nem impostos, regido por regras proprias, contituindo um mundo invisivel e único. Não sei no resto do mundo, mas aqui em São Paulo é assim. Senti-me muito pequena ao pensar todas estas coisas enquanto caminhava para buscar minha CNH, minha permissão para usufruir de um luxo que poucos tem, enquanto muitos outros se apertam nos trens e ônibus e outros tantos andam, vagam, por aí, sem destino certo, sem rumo.
