quarta-feira, 18 de novembro de 2009

A Cidade Invisivel

Ontem fui renovar minha carteira de motorista que já estava vencida há um mês. Hoje fui buscar. Voltei feliz pra casa da mesma forma como me senti quando peguei minha primeira habilitação: estou habilitada a me aventurar por aí, again. Muito boa essa sensação. Fui ao Poupatempo Sé, que fica proximo à Praça da Sé e tanto hoje como ontem aproveitei para dar uma andadinha por lá. É uma praça tão bonita, fiquei pensando que seria legal passear com a Luiza por lá, pra tomar um solzinho, mas não dá. Muitos moradores de rua, muitos problemas sociais, drogas, pobreza. Por três anos trabalhei para uma Cooperativa de reciclagem de lixo e estive em contato com esse submundo, o invisivel mundo de quem vive à margem da sociedade. Enquanto andava pela lendária Praça da Sé, procurava pelo D., pelo E., pelo V., cooperados que conheci e que preferiram a rua a deixar de usar drogas. Triste, não? Fiquei me perguntando onde estão, como estão e me lembrei que a Sé não era bem o reduto frequentado por eles, cada um tem sua preferência. Aqui em São Paulo existe uma outra cidade, uma cidade invisivel, a dos moradores de rua, que só quem passa por isso, ou como eu, trabalha com estas pessoas, conhece. Dá pra dormir, tomar banho, comer, se tratar sem gastar nenhum tostão. É a máquina da desigualdade social, dirigida pelo governo e por ONGs, por pessoas movidas pela obrigação e outras motivadas pelo desejo de um mundo melhor, mas que não consegue garantir vida digna a todos. Na tentativa de minimizar este problema, oferecem abrigo por uma noite, comida, roupa limpa, banho, mas não casa, lar, refeições e trabalho.
Conheci pessoas de diversos tipos. Aquele que foi empresário e que perdeu tudo pela bebida, aquela que era freira, mas que foi acusada de promiscuidade e foi convidada a retirar-se do convento e sem ter para onde ir, foi pra rua. Aquele que saiu de longe buscando um sonho, mas que deparou-se com uma realidade bem diferente e, com vergonha de contar pra familia que falhou, foi ficando por aqui, de albergue em albergue, tentando, sonhando, desejando conquistar algo melhor. Aquele que fugiu da opressão do pai e tornou-se um andante. Aquele que surtou depois de perder a mãe e passou anos e anos vagando pelas ruas, aprontando arruaças, dando uma de chefe, de rei. Aquele que se habituou à liberdade de viver sem muros, sem paredes e que já não se adapta mais a uma vida igual a minha e de todos aqueles que vivem de acordo com as regras sociais, que paga impostos, que tem um teto.
É um outro mundo, mundo este que nos passa despercebido na maior parte do tempo. Às vezes nos lembramos dele nesta época do ano, época de Natal, de confraternização, amor e CARIDADE. Tem gente que faz sopão pra quem mora na rua, tem gente que doa roupas, comida e por aí vai, mas no resto do ano evitamos olhar, enxergar este outro mundo, este mundo invisível. Mas ele está aí e lá, na Praça da Sé, podemos entrar neste mundo ao menos um pouquinho. Penso que anos atrás este mundo era lá, mas andaram revitalizando os cartões postais de São Paulo e a Praça anda tão bonita e tão bem cuidada que espanta quem não tem para onde ir, mas não ao ponto de eliminar por completo, há aqueles que são fieis ao seu ponto, como a cracolandia, a Prefeitura vai lá e põe todo mundo pra fora, mas dois dias depois está todo mundo de volta. Nem todo mundo que vive nas ruas usa drogas, mas uma boa parte usa sim e contra ela, a droga, haja projeto social pra dar conta.
A coisa que mais me impressionou ao tomar contato com este outro mundo, é que boa parte daquelas pessoas, nasceram como eu, viveram como eu e, porque alguma coisa não saiu como se esperava, foi parar na rua. Eu pensava ao ouvir estas historias: podia ser eu ou podia ser um dos meus. Ninguem nasce na rua, sem pai nem mãe, as pessoas vão parar na rua. E quem está na rua não é necessariamente aquele que pede esmolas e coisa e tal, nem dá pra confundir o morador de rua com o morador de favela, são categorias muito diferentes. O morador de favela pertence a uma classe social menos favorecida, o morador das ruas pertence a todas e à nenhuma classe social. Vive num universo paralelo, onde não há taxas nem impostos, regido por regras proprias, contituindo um mundo invisivel e único. Não sei no resto do mundo, mas aqui em São Paulo é assim. Senti-me muito pequena ao pensar todas estas coisas enquanto caminhava para buscar minha CNH, minha permissão para usufruir de um luxo que poucos tem, enquanto muitos outros se apertam nos trens e ônibus e outros tantos andam, vagam, por aí, sem destino certo, sem rumo.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Sábio tempo...

Dizem que o tempo cura tudo. Por um tempo duvidei dessa frase, mas começo a acreditar que possa ser verdade. Já faz um ano e três meses que meu pai partiu. Por um longo período nutri um sentimento que ia da indignação à raiva, uma certeza de que nunca me conformaria, que sempre me perguntaria se era verdade mesmo, por que tão cedo, enfim... mas o tempo passou. Ano passado, nesta mesma data, dia das almas, não pude visitar meu pai no cemitério e foi um sofrimento horrível, parecia que eu o estava traindo. Desta vez também não fui, aliás me dei conta de que não tenho muita vontade de ir ao cemitério, não sofri. Ao contrário me dei conta que aquela raiva toda passou, meu coração está tranquilo, cheio de paz e amor, sobrou apenas a saudade, aquele sentimento que a gente tem porque já amou demais. Que bom! A vida tem sido generosa, me deu uma família linda e uma filhinha tão fofa, tão esperta, tão alegre, que manter sentimentos menos nobres não é bonito da minha parte, só posso sentir gratidão e alegria. A única coisa que ainda me entristece demais é que minha pequena é tão especial que seria o orgulho do vovô, estou certa de que ele curtiria muito a neta, sairia mostrando ela pra todo mundo, exibindo mesmo, até deixar a gente com vergonha, mas feliz por tanto orgulho e tanto amor. Ela seria o xodó dele e ele o xodó dela. Ele não a teve e ela não o terá. Fazer o quê.
Não tenho vontade de ir ao cemitério e é porque ele está aqui, dentro de mim. Nunca vou conseguir mostrar a Luiza sua grandiosidade, mas parte do que eu sou e do que eu sinto vem dele, assim, no meu colo mora um pouco do colo dele também, é o que eu posso fazer. E guardar estas historias para quando ela souber ler. Tomara que ela se emocione e reviva estes momentos pelos meus olhos, assim poderá sentir saudades do vovô que não conheceu, mas que já a amava antes mesmo dela nascer...
O tempo é sábio e abranda as feridas, mas não leva embora o amor que outrora sentimos. Suaviza nossa vida com a doce saudade e transforma a dor em historias pra contar, pra lembrar, pra sorrir de novo e de novo ser feliz. Sábio tempo...

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Não quero soluções, só reclamar

Ai ai, deixa eu reclamar um pouco, às vezes é isso o que a gente quer, não é? Neste fim de semana surtei. Fazia muito tempo que eu não tinha uma crise de mau humor que durasse tanto, mas é que às vezes a gente cansa! E eu fiquei cansada. Cansada de não dormir, cansada de lavar roupas, cansada da casa que nunca, nunca mesmo, está arrumada, por mais que eu arrume, cansada de esperar o que nunca vem, frustrada por constatar que não vai vir mesmo, cansada de não ter o meu dinheiro. Não que me falte alguma coisa, mas tem coisas que são fundamentais pra gente manter nossa auto estima. E quando vou reclamar, afe, seja quem for o ouvinte, sempre vem com soluções. Não as quero, só quero me queixar um pouco, dá pra ser? Falei com minha mãe a pouco pelo telefone e ela é a pior ouvinte de todos, aliás, ela não ouve. E dispara a reclamar também. É tão difícil assim parar um pouco pra ouvir o que o outro tem a dizer? Só ouvir e ponto. Parece impossível.
Aliás, ouvir é uma arte, consiste em despir-se de toda a sua vida para colocar-se inteiramente à disposição do outro, o falante, sem formular respostas enquanto ouve. Preste atenção, enquanto alguém te conta alguma coisa, você consegue não pensar em nada? Na maioria das vezes, antes mesmo do termino da primeira frase dita pelo falante, nós, ouvintes, já começamos a formular nossa fala. Às vezes até tentamos adivinhar o que o outro está dizendo antes dele dizer. Poucas vezes conseguimos ouvir mesmo, parar e escutar o que o falante está dizendo, sem julgamentos, sem se lembrar de algo que se passou com você, sem pensar em soluções, em respostas prontas, em atalhos para chegar ao fim do caminho que precisa ser trilhado por inteiro.
Na minha profissão sou obrigada a treinar esta escuta, a observar o fenômeno que se mostra, mas no dia a dia sou tão mau ouvinte como todo mundo que eu conheço. Às vezes consigo, mas aí fico sem muitas respostas e muitas vezes quem me fala quer realmente ouvir alguma coisa. Mas eu não, quando falo, só quero falar e pronto. É que esse exercício de falar é também o de ouvir a própria voz e enquanto falo e ouço, meu pensamento se organiza, minhas emoções se equilibram, encontro minhas respostas que na maioria das vezes, seja qual for o conflito, estão dentro de mim. Claro que falar sozinho não funciona, senão era só ficar falando, falando e pronto. A figura do ouvinte é fundamental nesse processo e, se todos nós aprendêssemos a ouvir e deixar o outro falar sem emitir opiniões até que o outro termine sua fala, acredito que boa parte dos conflitos e problemas se resolveriam com mais tranquilidade, a resposta quase sempre está dentro de nós.
Por isso clamo pelo direito de reclamar, falar, falar, falar até cansar, ou até ouvir minha própria voz, dá pra alguém me ajudar?

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Redescobrindo a Lua

Sexta feira tive um dia daqueles. Trabalhei feito uma "condenada" pra deixar tudo pronto porque a gente ia viajar. Lá pelas tantas o marido liga dizendo que vai fazer hora extra para testar um equipamento. E eu com isso. Além de todas as tarefas, vamos passear com o cachorro. Peguei a Luiza uma hora mais tarde na escola e, como já não bastasse, ela resolveu fazer birra, a primeira, só queria colo, um sufoco! À noite, na estrada, eu enfastiada de tanto cansaço, queria reclamar. Aí o marido disse qualquer coisa que me fez calar. A certa altura ele me pergunta se eu vi a lua. A ha, e eu lá tenho tempo de ver lua? Pensei, só pensei. Estiquei-me pra ver se a via então, e de repente uma série de lembranças pipocaram meus pensamentos. Lembrei-me do tempo em que me dedicava a olhar a lua, grande, brilhante. Ficava admirando, vendo ela subir e tornar-se pequena, imaginando uma vida de sonhos, de amor. E foi assim por anos a fio, durante toda a minha adolescência. Pensei: não tenho saudade! Acho que porque vivi intensamente. Entreguei-me àquele sentimento da maneira mais sincera e fui feliz e triste olhando a lua. Passou. Hoje já não a olho como antes, de fato não dá tempo, mas a tenho bem guardada na lembrança de um tempo em que sonhava com tudo o que tenho em minha vida hoje.; Acho que de fato não preciso ter saudade. Também lembrei do dia em que meu pai me disse que pagaria a escola pré-vestibular pra mim, um dos dias mais felizes de minha vida. Eu costumava deitar no sofá e ficar ouvindo música com a luz apagada até adormecer, no inicio da noite. Neste dia, fazia o mesmo quando meu pai chegou e acendeu a luz. Fiquei irada, ele me acordou. Eu queria muito mudar de escola junto com minhas amigas, para estudar pro vestibular, mas nem tive coragem de pedir pro meu pai, ele não valorizava nada disso, porque me pagaria escola se eu podia estudar de graça? E, como ele insistiu em dizer muitas vezes: faculdade era pra gente inteligente... Aí prestei um vestibular qualquer, no final do segundo ano e passei, provei que merecia o investimento. Sem que eu pedisse ele me concedeu o que tanto desejava. Claro que era o inicio de uma longa caminhada e de muitas brigas e desconfiança de que realmente não era dinheiro jogado fora, mas isso é outra historia. Quase sinto novamente a euforia que me invadiu, precisei sair de casa, contar pra alguém, minha alegria não cabia em mim, estava transbordando... Não sei se era noite de lua cheia, não lembro, mas fazia calor e aquele ar gostoso me abraçava enquanto saltitava pela rua. Até me deu vontade de saltitar de novo.
Meu pai, na sua simplicidade, me ensinou a admirar as coisas da natureza, me ensinou a viver intensamente e a aproveitar o momento presente em sua plenitude. Se estou triste, sou triste. Se estou alegre, fico saltitante. Se estou brava, não mexe comigo. Uma emoção a cada momento, vivida intensamente, reunindo um montão de historias pra lembrar e contar.
Quanta coisa me rememorou aquela simples pergunta... espero que a Luiza também goste de olhar a lua e sonhar...

Hoje quando voltava pra casa depois de deixar a Luiza na escola, vi o moço das frutas e lembrei do meu pai e da jaca que nós compramos e que ele comeu com tanto gosto. Aquela barraca de frutas deixou para sempre de ser apenas uma simples barraca de frutas...

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Amamento, logo existo.

É uma doideira, mas com a gravidez fiquei com problema de memória. Minhas amigas, mães recentes como eu, relatam o mesmo efeito colateral. Sendo assim, às vezes me vem uma coisa muito legal pra escrever, mas como nem sempre posso correr pro computador, a coisa legal escapa. Esqueço. Sempre gostei de ficar pensando, divagando pelas minhas fantasias e às fazia isso no banho, nas viagens de ônibus, depois de metrô. Teve um tempo em que eu não perdia a oportunidade de conversar com as pessoas, mas fui ficando cansada, porque diante de uma psicóloga as pessoas tem duas reações: ou se calam, ou contam seus problemas. Fui ficando cansada disso e passei a falar o mínimo possível, a evitar mesmo qualquer conversa de corredor, e passei a pensar, pensar. A vida muda tanto... tenho tido tão pouco tempo pra fazer qualquer coisa, mas ontem me dei conta que hoje, sem tempo para banhos longos, sem tantas viagens de metrô, onibus, penso enquanto amamento. No inicio, pra mãe de primeira viagem, amamentar é uma loucura, como dá trabalho! Mas com o tempo, quando o bebê já aprendeu como faz e não precisa mais de ajuda, a mãe se torna quase desnecessária nesta relação, salvo pelo fato de que sem ela não há peito, ufa, que bom. Amamentar é muito gostoso. Mas se torna um tempo vago, que não se pode fazer mais nada, apenas estar ali. Tem mãe que lê, tem mãe que assiste tv, eu penso. E meu pensamento voa, voa, e me dá vontade de correr pra cá pra escrever sobre todas as ideias que me ocorrem, mas... que pena que a memoria hoje me trai, rouba minhas ideias e as esconde no fundo do seu baú, no qual quase não tenho acesso.
A Luiza resolveu que não quer dormir, acorda a cada hora faminta, às vezes penso que ela está passando fome durante o dia por isso quer compensar à noite, mas penso também que ela pode estar sentindo minha falta, já que não ficamos mais o dia todo juntas, daí a saída: mamar a noite toda. Estou estranhando muito e ficando exausta, nunca foi assim, confesso que não sei o que fazer. Li um livro que manda deixar chorar até se acalmar sozinha, mas não consigo. E quando tento ela vai ficando cada vez mais desesperada, alguém tem uma dica? Aí, minhas madrugadas que já eram de sono tranquilo, estão se tornando madrugadas pensantes, que mais me resta fazer? Por um lado fico toda inflada por perceber o quanto sou importante pra minha riqueza, por outro, tenha dó, mães são mesmo escravas da tirania dos filhos. Hoje ela completa 7 meses e já reina no ambiente, como é difícil impor limites, e olha que eu sou bem brava, não admito certas coisas, ainda assim, você acaba fazendo concessões para a criança comer, para você dormir um pouco mais e, adeus limites.
Então fica assim, enquanto resolvo meu conflito entre ser dura para impor limites (às vezes a gente tem que deixar o filho passar fome pra ele pegar a mamadeira) e ceder ao meu coração mole de mãe, vou ficando acordada, amamentando minha riqueza que já nem precisa mais de tanto leite, e pensando, pensando, pensando...

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

As coisas simples da vida...

Ontem fui ao mercado fazer as compras da casa. Ao chegar lá, estacionei o carro e saí, deixando a chave no contato. Só percebi quando fui trancar e não tinha como, fiz compras rindo sozinha, acho que perdi o hábito. Não fazia compras sozinha sei lá desde quando. No final da gravidez já não carregava sacolas mais e depois que a Luiza nasceu passei um bom tempo sem saber o que é isso. Teve um tempo que eu adorava fazer compras e um tempo que eu odiava. Neste ultimo faltava verba, ninguém merece ter que somar centavos pra ver se o dinheiro dá. Achava tão difícil sair sozinha com a Luiza no começo que só fazia isso em caso de urgência ou para a ida ao pediatra, então ir ao mercado passou a ser meu objeto de desejo. Hoje voltei lá pra comprar o que esqueci ontem e fiquei conversando com um senhor aposentado na fila sobre as promoções dos mercados e o quanto a vida está cara, o tempo passou rápido e nem senti a fila. Lembrei-me do tempo em que eu fazia amizade até no ponto de ônibus, tempo em que eu ambicionava me tornar uma psicóloga e ficava aprendendo sobre as pessoas por aí, bons tempos, de muita disposição para o aprendizado, quase nenhum dinheiro e poucas contas para pagar, poucas responsabilidades. Não tenho nenhuma saudade. A vida era mais leve, mas as preocupações eram tão mais pesadas... qualquer bobagem era motivo de extremo sofrimento, próprio da idade, do tempo de ser adolescente ou adulto jovem. O senhor da fila me disse que passa a semana andando atrás das promoções, que não paga passagem de ônibus e que acaba economizando um bom dinheiro. Aí acrescentei que ele estava certo, pois além disso evitava ficar em casa adoecendo, pois é isso o que acontece com quem pára e não coloca nada no lugar. Mas fiquei pensando no que diz a minha querida Yolanda Forghieri, que envelhecer é tornar-se livre de fato, é poder ler aquele livro que se abandonou por falta de tempo, tirar um cochilo no meio da tarde, dormir assistindo a novela das sete e acordar na novela das oito e pensar: nossa, mas mudou a novela? E não sentir culpa alguma. Penso que deve ser bom. Ou ficar por aí buscando as promoções. Penso que uma das grandes satisfações da vida é a sensação de ter feito um bom negócio, como dá prazer! Enquanto não chego lá, fico aqui com as minhas inúmeras obrigações de mãe, esposa, dona da casa e quem sabe profissional, sem tempo para as promoções, mas feliz, por gastar tempo com preocupações reais, por rir das bobagens da vida e ainda com energia para perceber as coisas simples e aprender com elas...

Esse post ofereço para minha querida Pilé, que acha que está envelhecendo, mas que tem o mais jovem dos corações...

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Primeira febre e recado pra Mamãe Coragem.

Na madrugada da sexta para o sábado Luiza teve sua primeira febre. Enlouqueci. Fiquei me sentindo muito culpada porque agora ela vai pra escola, come papinhas e eu já posso mais protegê-la com meus anticorpos como antes. Mas como disse meu marido, ela tem que crescer. É engraçado como tenho visto todas as minhas teorias caírem por terra desde que Luiza nasceu, na prática a coisa é outra. Deus me deu uma filha perfeita, não teve cólicas, não troca o dia pela noite, mama com vontade, cresce numa proporção fenomenal, tem quase sete meses com tamanho de um ano, quem não quer um bebê assim? Dei-me conta que com todas estas dádivas tenho dificuldade em lidar com o que sai do normal, da rotina. Há alguns dias ela decidiu que não queria dormir, ficava acordando de hora em hora e eu fiquei podre. Li um livro que ensinava a fazer dormir, tinha que deixar o bebê chorar até se acalmar sozinho, percebi que com minha riqueza não funciona, ela fica desesperada e aí que a coisa desanda. Ela voltou a dormir, acordando apenas pra mamar, como sempre fez. Aqui é que eu preciso mudar, ensiná-la que ela não precisa comer de madrugada. Com a febre revivi dois momentos muito difíceis da minha vida: a doença de meu pai e a minha própria doença. Por mais que eu olhasse pra ela e visse uma criança super esperta, não fosse o termômetro nem diria que estava com febre, meu coração estava em pânico, que medo de perdê-la. Nem sabia que estava tão traumatizada. E quando fico apavorada fico também impaciente, o que é muito ruim, quero que as coisas se resolvam assim, num estalar de dedos, e não é assim, . Passou, Luiza já está boa de novo, foi uma bobagem, graças a Deus, e agora faço essa reflexão, tenho muito o que aprender. Às vezes penso que não vou deixar minha riqueza crescer, sair da barra da minha saia, e eu nem uso saia, mas me esforço para não ser tão neurótica, filhos são do mundo.

Mamãe coragem, que segue meu blog disse que prefere babá à creche, sabe que eu começando a achar que eu também? Mas aqui em São Paulo é tudo tão grande, imprevisto, assustador às vezes. Estamos aqui apenas eu e meu marido, não temos família por perto. Fizemos muitos amigos nestes anos aqui, mas quando o bicho pega mesmo somos só eu e ele e por um tempo era apenas eu. Sugeriram-me trazer alguém da minha terra pra cuidar da Luiza, mas eu moro numa caixinha de fósforo, onde iria acomodar alguém? Mesmo com meu coraçaõ partido ainda acho que a escola é a melhor opção. São só 5 crianças pra duas tias, sei que ela é bem cuidada lá, eu é que estou mal cuidada aqui, longe dela.
Mamãe coragem, admiro você e estou rezando pra que sua Duda seja luz na sua vida, assim como a Luiza é na minha.